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Vela Adaptada

Vela sem Limites em Cascais

Todas as segundas, quartas, quintas e sábados o cais do Clube Naval de Cascais tem outra animação. Prepara-se mais um dia em que os cidadãos portadores de deficiência podem praticar vela.

A ideia chegou num barco vindo da Galiza tripulado por deficientes motores em 2004. O Clube Naval de Cascais, a Cercica, e a Câmara Municipal de Cascais acolheram a ideia de imediato. Era necessário desenvolver esta actividade em Portugal pelo seu potencial lúdico, terapêutico e desportivo seguindo na esteira do que já se fazia na Inglaterra, EUA e Austrália e começa agora a ter alguma expressão na Europa.

Unimos então esforços, consagrados num protocolo tripartido: a Câmara Municipal de Cascais deu o seu apoio institucional e financeiro estável; a Cercica ofereceu as coordenadas técnicas aplicáveis e emprestou dois semi-rígidos que estavam parados e agora servem de embarcações de apoio e segurança; o Clube Naval de Cascais tratou da parte técnica e monitorizou e formou os nautas, recorrendo a muitos voluntários e alguns profissionais, alem de conceber o pontão de apoio e adquirir as embarcações Access.

Por definição um cidadão deficiente faz o mesmo mas precisa de mais tempo. É só essa a diferença. Assim decidimos chamar o projecto Vela sem Limites.

Os patrocinadores têm sido fundamentais para o sucesso do projecto, e desde o primeiro dia a Seth, a Lindley, a SIC Esperança e a Plastimo, este ultimo através do fornecimento de equipamentos, têm nos apoiado sem hesitação. A estes juntaram-se recentemente a Administração do Porto de Lisboa e a BRISA, que apoia os Encontros anuais, e que vão já na sua sexta edição em 2012!

E não se trata só de apoios monetários. Temos muitos e variados apoiantes, pois todas as ajudas são bem vindas, como por exemplo o apoio da Garland no transporte subsidiado das embarcações Access da Inglaterra e da Holanda, ou dos Escuteiros do Estoril com voluntariado para os nossos eventos.

Esta iniciativa depende da responsabilidade social, que apesar das crises económicas e vários apertos a que estamos sujeitos, continua bem presente na mente de muitos, felizmente!

Os barcos – da Classe Access – adaptados a pessoas com condicionamentos físicos, são uma excelente escola.
Dos oito disponíveis no Clube Naval de Cascais, dois estão preparados com motores eléctricos para serem utilizados por tetraplégicos. Uma técnica comprovada por uma travessia do Canal da Mancha realizada com comando do leme e da escota por sopro da tripulante feminina, ou uma volta as Ilhas Britânicas pelo GeoffHolt, tetraplégico, num trimaran da Classe Challenger.

Existem uns 50 Access em Portugal, no entanto apenas um número reduzido em actividade regular. Só o Clube Navais de Cascais, Funchal e da Horta navegam sistematicamente, embora os Clubes na Povoa, Viana de Castelo, e o Centro Náutico do Parque das Nações começam a aumentar a sua actividade.

Através da Associação Portuguesa da Classe Access (APCA), estamos empenhados na maior divulgação da Vela Adaptada, através de empréstimos gratuitos de barcos Access e de equipamento auxiliar, e o apoio na organização de eventos, mas os resultados têm demorado em aparecer. Sem o alargamento da prática da vela adaptada, dificilmente iremos progredir. Na Inglaterra, uns 120 Clubes praticam a Vela Adaptada regularmente! Mas não vamos baixar os braços, e vamos insistindo na divulgação da modalidade para o qual a competição é um meio ideal.

Em termos de competição nos últimos três anos a APCA tem fomentado a organização de regatas em barcos Access 2,3 para a selecção dos melhores velejadores para a equipe representante de Portugal em campeonatos internacionais.
Os resultados têm sido excepcionais. O Bruno Pereira ganhou o Campeonato Europeu em 2009, ficando com a medalha de bronze nos Mundiais de 2010. O Pedro Reis é Campeão da Europa em título, tendo conquistado o primeiro lugar na Itália em 2011. Ambos são do CNCascais.

Qualquer desporto precisa de jovens e competição, mas reconheço, no entanto que na vela adaptada a idade não é crucial para se obterem os melhores desempenhos. Na deslocação em Junho da nossa equipe ao Funchal para o Campeonato Nacional, aonde o Pedro Reis conquistou o primeiro lugar, o Domingos Cagembe com 55 anos, classificou-se no 5º lugar na geral!

A Vela em Limites do Clube Naval de Cascais compõe-se não só de velejadores regulares (uns 80) como também daqueles que vêm experimentar a vela adaptada nos Encontros (uns 60 por ano), duns 25 voluntários, que ajudam regularmente em todas as sessões, e de 5 monitores profissionais.
Os voluntários são particularmente importantes, pois recebem os velejadores, tratam da estatística e organização, preparam e vestem os coletes, aparelham as embarcações e através da grua colocam os velejadores nos Access.

As dificuldades existem evidentemente, mas o voluntarismo e a vontade tudo ultrapassa. A procura é maior que a oferta e se mais meios existissem maior seria o desenvolvimento desta modalidade.
Assim pouco a pouco vamos ultrapassando os obstáculos: por exemplo este ano inauguramos um novo cais flutuante, especificamente concebido para a prática da vela adaptada, e iniciamos sessões de vela para invisuais, com muito sucesso.
E este sucesso reflecte-se na estatística, desde 2005 realizamos:

  • mais de 690 sessões,
  • com 6300 saídas a vela,
  • apoiado por mais de 7000 presenças de voluntários e profissionais!

Hoje em dia calcula-se que 10% da população europeia seja portadora de deficiência, e a vela adaptada corresponde em pleno a essa população oferecendo possibilidades de ócio activo, estudo e utilização de conhecimentos náuticos para um melhor desempenho e até um pouco de aventura. Tudo aspectos muito importantes na vida de qualquer pessoa, e particularmente dos Portugueses, a beira-mar plantados!

cdl.vsl article.09.12